Sou mestre e jogador de RPG há cerca de seis anos e sempre achei bastante
curioso o momento da criação dos personagens. Alguns jogadores
queriam personagens violentos, outros personagens intelectuais, jogadores homens
às vezes queriam personagens femininos... O envolvimento dos jogadores
com seus personagens nas seções de jogo é outro ponto muito
interessante: há jogadores que mostram pouca motivação
para representar, outros que se envolvem completamente, ficando muito nervosos
em situações de risco. Isso sem falar no desespero que ocorre
quando um personagem morre... Eu mesmo já me emocionei com situações
desse tipo. Momentos como esse contagiam toda a mesa de jogo. Sempre achei tudo
isso algo muito interessante, porém confuso se interpretado sem uma base
intelectual adequada, por isso resolvi explorar essa relação entre
os jogadores e seus personagens de uma maneira mais profunda.
Para este trabalho busquei teorias da psicologia que explicassem os relacionamentos
sociais e a identificação sem separar um tema do outro, devido
à natureza do RPG, que é um encontro social. No livro "Representação
do Eu na Vida Cotidiana", Erving Goffman (1956) faz uma analogia entre
a representação teatral e as relações sociais do
nosso cotidiano. De acordo com sua teoria, quando nos relacionamos com outras
pessoas diante delas estamos representando:
"Venho usando o termo "representação" para me
referir a toda atividade de um indivíduo que se passa em um período
caracterizado pela sua presença contínua diante de um grupo particular
de pessoas e que tem sobre estes alguma influência". (Goffman,
1956: p.29)
Falarei mais sobre as teorias de Goffman mais adiante. Identificação
é, segundo a psicanálise, a "escolha de "outros"
significativos como modelos" (Bock, 1995: p.214). É o caso,
por exemplo, do menino que escolhe o pai como modelo, acreditando que ao seguí-lo
conseguirá mais amor e atenção de sua mãe. Normalmente
escolhemos nossas companhias dessa forma: mesmo que existam diferenças,
sempre há elementos em comum entre nós e aqueles que escolhemos
para fazer parte de nosso meio. De outra forma seria impossível a formação
de grupos sociais.
Começo o trabalho apresentando um pouco do mundo do RPG. Como surgiu,
como se joga, etc. Após isso voltarei a tratar do assunto através
de teorias da psicologia.